O sol nasce na cidade de pedra.
Um dragão cospe fogo nas ruas.
O vento sopra, frio e sibilante.
Um turbilhão leva uma folha de jornal.
E eu me arrepio porque sei
Que em algum lugar você está
Está só pensando em mim.
Nós nunca nos encontramos
Mas sabemos quem nós somos
Nós somos um , desde que nascemos
Disso sabemos.Mesmo que nunca
Nunca venhamos a nos encontrar
Ainda assim, nada pode nos separar.
As nuvens passam rápido no céu
Aves negras voam no horizonte
Soldados de aço marcham ao pôr do sol
Enquanto sangue é derramado nas ruas.
E eu vejo num outdoor um retrato seu.
Subo no alto da torre, perto das estrelas
E vejo a cidade de cima, luz e trevas.
Pássaros de aço sobre a minha cabeça.
Serpentes trovejantes sob os meus pés.
Desço aos subterrâeos da metrópole
Viajo sob a terra na cidade desperta
E então,na penumbra duma estação,
Quase por acaso nossos olhares se cruzam
Será você? Como eu vou saber?
O tempo passa, os lugares mudam.
As coisas e as pessoas vêm e se vão
Talvez nunca eu tenha certeza
Se aquela era ou não era você
Algum motivo deve haver, por que
Em meio aos esbarrões da multidão
Foi justo aquele encontro acontecer?
Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às
4:03 PM
30.8.03
"O grande desafio do compositor é fugir de sua própria sombra. O passado vai ficando grande, às vezes maior do que a gente mesmo." A frase é de Toquinho e, com certeza se refere de certo modo, a ter tido no passado, como parceiro um mestre gigante da poesia: Vinícius de Moraes, que ele carinhosamente chamava de Vina. Pois eu vou fazer uma coisa feia, já que não venho postar minhas próprias poesias há muito tempo, nestas planícies de brisas inspiradas... Queria, desta vez, tão somente convidar os amigos e "passantes" a conhecer a nossa Radio Blog que neste fim de semana toca um pourpourri de Toquinho e encerra sua participação no concurso TopBR de Sites de Música. Você pode curtir um bom som, colaborar votando na Rádio, e voltar aqui pra ler os nossos escritos! :o) Digo que estou fazendo coisa feia porque considero este aqui um cantinho sagrado do verso e prosa, onde a gente em geral não deveria promover projetos de outra natureza... por isso reconheço estar "forçando um pouquinho a barra" com um teaser de outro blog aqui. Mas agora como já escapou ;o) Me perdoem e visitem... hehe... Vale a pena!
CoRa soprou estas palavras ao vento às
12:34 PM
29.8.03
Fúria Conjuntiva
Mas que excremento é esse em matemática - para não parecer mais vil do que serei
nestes versos- de
Teoria dos Conjuntos?
Sou dum conjunto: Pertenço.
Porém,
Eu quero simplesmente
não pertencer.
Merda! - para ser vil mesmo.
Se quero não pertencer,
PERTENÇO
ao conjunto dos que
Não Querem Pertencer.
Excremento! ( Excrementos - como a merda - pertencem ao conjunto dos dejetos orgânicos. Lixo,
que nossa carne não mais precisa ).
Conjunto. Com, junto. Com o junto. Com e junto.
Se sou sozinho
- olhem que maravilha! -
não sou sozinho ( faço aqui um "Postulado da Solidão" ),
Afinal:
Pertenço
ao conjuntos dos sozinhos - junto COM eles estou.
Se me mato,
Pertenço
Ao conjunto dos mortos - talvez vivos.
Se sou meio(?) esquisito
- excremento de novo -
Pertenço
Ao conjunto
dos meios esquisitos. Esquisitões, pessoas estranhas - que escrevem coisas estranhas, sem nexo ( linhas esquizofrênicas ).
Ora pois,
Se não Existo - Ah, se não existisse. Se não pensasse! -,
Pertenço
ao conjunto - que existe(?) - das coisas que não EXISTEM; ( infinitos pégasus não existem, porém
Um Pégasus
Também ) e
Ora vejam só:
Acabo de provar - nisto que é
Uma
FÚRIA CONJUNTIVA escrita, e não uma
Poesia -
A existência - infinita - da
INEXISTÊNCIA;
E talvez também - já que infinitos pégasus não existem -,
A Inexistência da Existência.
Francisco Maximiano da Silva.
*Obs.: Há um quê de Bertrand Russel aqui, vocês não acham?
Francisco M. Silva soprou estas palavras ao vento às
11:34 AM
27.8.03
EU, MUNDO
Eu sou o mundo das betoneiras, misturando o cimento para os seus ninhos de tijolos e concreto , tocas e ninhos : nunca mais pássaros Dodô, extintos pelo instinto de destruição humano. Extintos como os gigantescos dinossauros que hoje são pássaros que cantam em gaiolas. Tristezas desde a queda da Bastilha, a tomada de Monte Castelo e a destruição da torre como a décima -sexta carta do baralho dos ciganos; a Torre de Babel, um avião de papel, a Torre de Pizza, um entregador de Pizza, A Torre Eiffel, um avião de aço na terceira casa do Rei e cheque-mate! Caem as torres gêmeas ...
As nações de EU, MUNDO guerreiam como órgãos de um corpo doente, enquanto a natureza agonizante tenta parir vida. Plantas medicinais, a planta baixa do pé de mamão, aqui, na palma da minha mão. Plantas carnívoras e pessoas vegetarianas, arianos e taurinos, o Jardim do Éden numa estufa do Gabão, peixes num aquário, pássaros na gaiola, eros e thanatos, apolíneos e dionisíacos.De São Paulo a Nagoya com escala em Atlanta uma viagem a trabalho, outra a lazer. Esquiando na Suíça, acampando em Yellowstone, tirando a carteira de motorista na Tailândia, vendendo bugigangas em Bangladesh. O Balé Bolshoi, a Ópera de Pequim, o tango de Buenos Aires, o fado do Porto, Portugal a trinta graus, o afoxé dos Filhos de Gandhi. Peregrinando para a Terra Santa, uma cruzada, uma cruz ansada num sarcófago egípicio, um cruzado de direita, caminhos se cruzam num cruzamento de cães ou cavalos clonados. Orando voltado para Meca, um esquimó num oásis no Saara, um beduíno num iglu no Alaska, uma corrida de riquishá em Taiwan vista num televisor chinês comprado no Paraguai. A volta ao EU, MUNDO em um segundo sem sair do lugar, via internet , via intranet, num balão meteorológico, um meteoro em rota de colisão, dois automóveis, duas vidas vêm colidem e se vão. A mentira num telejornal, a verdade num filme, um olhar que se desvia do rádio, ouvidos ignoram a televisão, uma bala ricocheteia em Amsterdã, amanhã. Amanhece em Tóquio, anoitece em Brasília, o EU, MUNDO gira.
Frio na Terra do Fogo, um pesadelo em Ushuaia, um caiaque nas corredeiras, um bugue nas dunas , derretem as geleiras de um coração frio. Um galpão vazio, um cais repleto de contâineres, pobreza em Porto Rico, a riqueza dos espíritos de porco. Cai a bolsa em Nova Iorque, roubam uma bolsa no Rio de Janeiro; em Maio, cai uma velha em Cingapura e estoura a bolsa de uma grávida no México em plena hora da siesta. Uma estação orbital, inverno em alto-mar, um barco à deriva, baleias encalhadas, moças solteiras e engarrafamento na hora do rush.Uma semana no spa. dois anos na prisão, quatro anos na universidade e uma vida inteira de ilusão. Ramadã, Yon Kippur e Helloween, dentro e fora tudo se mistura em mim: monges tibetanos; mafiosos chineses; farsantes ingleses; peregrinos taitianos; contrabandistas de poesia, traficantes de influência; viciados em amor se encontram na primeira página do jornal. Médicos doentes: advogados criminosos;padres pecadores, e ladrões honestos. Inocentes na colônia penal, criminosos numa colônia de férias, guerrilha na Colômbia, paz no Afeganistão. Uma ogiva nuclear, uma ogeriza secular levando a limpeza étnica, a leveza da ética do politicamente correto dos protocolos diplomáticos que caem por terra em combates em alto-mar.Música toca na rádio, televisão, rede, 91,3 megahertz, 100 gigabites de memória amnésica e 10 centímetros cúbicos de overdose nos distraem até que 1000 megatons de medo e ira destroem EU, MUNDO. Um barco vira no lago Ness, uma reviravolta na nossa vida, passagem de ída sem volta. Satélites, antenas e cabos, correspondentes, emissários e parceiros parlamentam na Babilônia. Krakatoa e Vesúvio explodem e jorra lava em Java, uma avalanche, uma enxurrada, um desmoronamento, Dragões de Komodo, Diabos da Tasmânia, recifes de coral, Corais de Recife cantam a mania e o incômodo do Apocalipse. Pelo Expresso do Oriente, o Trem da Morte,ou de Prata, Chile, Peru, Rússia, Seul, o sol da meia-noite, a lua ao meio-dia. A aurora austral para os pingüins, a aurora boreal para os ursos brancos, animais migram, emigram, intrigam. A penumbra na Ungria, a macumba daqui, os zumbis do Haiti, as favelas do Brasil, um enduro pelo deserto de um coração desiludido. Garoas como lágrimas de refugiados albaneses, febre do feno, gripe espanhola, cactus nos trópicos, capitalismo-comunista, um terremoto no Ceará. A Copa do Mundo,as Olimpíadas, as Tropas da Otan, espetáculos e genocídios nos confundem. Marcapasso num eremita, coração de aço por trás da cortina da Dama de Ferro, crimes contra a humanidade, cai a casa e o Muro de Berlim. A Estátua na Liberdade, as Pirâmides do Egito, o Kremlin e o Taj Mahal em cartões postais enveneados pelo racismo. Homens-bomba, assassinatos nas escolas, a falta de escolha nas eleições.Olhos nos olhos, dentes nos dentes, língua na língua: um judeu americano se casa com uma muçulmana afegã e se faz a paz na Terra que eu sou EU, MUNDO!
Originalmente publicado em 8/9/2002 01:37:14 AM no meu blog Areias ao Vento
Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às
4:12 AM
26.8.03
Ensaio da Incapacidade
Cada um.
Cadum.
Pois..., É.
Cada um
É
Cada um.
Por incapaz não sê-lo,
Possível, é
Sêr-me.
Impossível,
É Sê-la, ou sê-lo.
Pois um, ... - apenas sou.
Em um unívoco Uno, e
iunívico Duo ou Multi. Não, apenas um.
Um alguém - no sentido mesmo indefinido da coisa.
Cada um: Soma capaz de nossa(s) incapacidades capacitativas.
Capacidade
nos torna
Incapazes - De Entender Um: A Própria INCAPACIDADE.
A capacidade de ser,
É
A capacidade de NÃO Ser.
A capacidade de SER
Perfeito, - é um ( qualquer coisa ) -
É a incapacidade de não sê-lo
( Ai de Deus! ).
A capacidade de AMAR,
talvez - seja um(a) - a
Capacidade de Ser
(Des)amado.
O um ( qualquer um, "melhor" )
Pode ser capaz de dar-lhe
Conforto à ALMA ( psiké )
e TAMBÉM Dar-lhe ...
- Um -
Eu Não.
Sou capazmente
Incapaz.
Francisco M. Silva soprou estas palavras ao vento às
1:23 PM
Preguiça ( da série Os 7 Pecados Capitais)
A preguiça do mar é a ressaca das marés.
A indolência da lesma é a pressa do coelho.
A preguiça do corpo é economia de energia.
E a preguiça da mente é a base da ignorância.
A preguiça do morcego é o rato.
A indolência da abelha é a formiga.
A preguiça de Deus é o homem.
Ora, a preguiça das eras é a hora.
A indolência do depois: agora.
A preguiça do passado: outrora.
A castidade é a preguiça do sexo.
A claridade é a indolência das trevas.
A paridade é a preguiça da trindade.
E a idade, indolência da eternidade.
Indolência do fraco: fraqueza.
Indolência do belo: beleza.
Indolência do certo:certeza.
Indolência do fim (não é): fineza.
A preguiça do conceito é o preconceito:
se a preguiça vive em árvores,
as árvores têm preguiça?
Aa preguiça do criado-mudo é só uma palavra...
A preguiça do orador é uma pausa.
Do leitor, é uma vírgula.
E a indolência do escritor é um ponto (final).
Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às
5:33 AM
25.8.03
Quando quero e
nada vem, eu espero.
Quando espero
e tudo vem, eu desfruto.
Quando desfruto e tudo passa,
eu me calo. Quando calo,
começo a querer novamente...
Autor desconhecido
Bia soprou estas palavras ao vento às
12:13 AM
Estranha forma de amar
Era pra ser um desabafo,
Mas transformou-se em canto...
Era pra ser um aceno,
Mas transformou-se em abraço
Era pra ser um adeus
Mas transformou-se em saudade...
Era pra ser eu mesma
mas transformei-me em você!
Bia soprou estas palavras ao vento às
12:11 AM
23.8.03
Palavras às palavras
Não busqueis na maioria das palavras o que deve realmente
entender como um verdadeiro sentido de amor.
As palavras são importantes para as comunicações,
mas não são tão bem explicativas para demonstrar o que de real se precisa saber.
Quantas palavras o nosso vocabulário tem?
Quantas frases se pode montar com elas?
Mas quantas nós colocamos em prática?
As pessoas se prendem tanto às palavras, vigiando todas por toda parte,
e cobram o que elas dizem, sem na maioria das vezes, entendê-las.
Quando se lê uma frase com o coração, o sentido é tão diferente que, às vezes,
uma palavra cresce aos nossos olhos,
nos chamando a atenção e levando-nos a compreensão exata daquilo que se é falado ou lido.
... Cuidado ao falar, as palavras criam formas e se manisfestam pela vida, ocupando todo espaço.
Falar é simples, mas falar com os olhos do coração,
será sempre mais seguro.
O importante em tudo que se faz, seja falado, escrito, lido ou pensado,
é a proporção de sentimento bom, usado para manifestar
o princípio básico da vida,
o amor, apenas o amor.
(Autor: Desconhecido)
Esse será o teu nome.
Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às
3:50 AM
22.8.03
Brevíssima de Jung ( 2ª Continuação de ¿Postulado da Palavra¿ )
"Nós não somos os criadores de nossa idéias, mas apenas seus porta-vozes; são elas que nos dão forma ...e cada um de nós carrega a tocha que no fim do caminho outro levará" Carl Gustav Jung
2ª Brevíssima de Jung ( 3ª Continuação de ¿Postulado da Palavra¿ )
" De certa maneira, minha vida é a quintência do que escrevi e não inversamente. O que sou e o que escrevo são uma só coisa. Todas as minhas idéias e todos os meus esforços, eis o que sou" Carl Gustav Jung
Obs.: Esta frases são de Jung, mas bem poderiam serem minhas.
Francisco Maximiano da Silva
Francisco M. Silva soprou estas palavras ao vento às
1:10 PM
Cada Um Cria O Seu Próprio Universo Psíquico ( Físico )
"É a mente que vemos refletida na matéria. A ciência da Física é uma metáfora com a qual o cientista, como o poeta, cria e amplia significado e valor na busca por entendimento e propósito... O que torna a ciência útil para nós e que nos faz apreciá-la - previsibilidade, objetividade, consistência, generalidade - não existe de fato em alguma realidade externa, independente da consciência. É parte de nossa experiência e interpretação do mundo. Vejo a obra monumental de Newton como uma monumental criação mental, um sistema de mundo concebido humanamente, incorporando consistência e ordem causal, que satisfaz a mente humana e a ajuda a aplacar o medo de um universo caótico. Seu trabalho é tanto uma obra de arte como uma obra de ciência. Protestar que a concepção de Newton é validada por inúmeras observações do universo físico não é argumento, pois minha idéia é que a concepção ou teoria e as quantidades são criadas paralelamente para a corroboração mútua (não necessariamente sem conflito e não necessariamente consciente). Além disso, as próprias quantidades se baseiam em uma definição e procedimentos de medida, que são fundamentalmente subjetivos" .
Roger Jones
Francisco M. Silva soprou estas palavras ao vento às
12:08 PM
20.8.03
Desculpas Aos Adolescentes.
Aproveito a oportunidade, para pedir desculpas pela forma como me referi aos adolescentes no texto "Shopptrix". Aqueles adolescentes são uma minoria - que só são maioria, obviamente nos shoppings - que não condiz com a realidade de nosso país. Os adolescentes reais - ou seja: a maioria - em nosso país, são aqueles apresentados no dia 15/08/2003 no Globo Repórter: São pobres; são a maioria, por isso são mais reais que os outros ( as maritacas ). Desde a tenra idade conhecem o labor e a dor. Dum certo modo, são cientes de sua inconsciência das letras e dos números. Cientemente inconscientes. A pena que sinto deles, também me causa uma certa revolta, que bem entendido será - por mim - se for a mesma revolta que talvez alguns possuam.
Dos adolescentes que falei em "Shopptrix" ( os comedores de pipoca e big mac ), não sinto pena. Eles são de classe média e/ou classe média alta, não precisam da minha pena ou compaixão - precisam de celulares e talões de cheque. Muitos deles ( as maritacas ), são alienados - embora cônscios das letras ( às vezes em mais do que o português )e dos números - com relação à seus irmãos - bem menos favorecidos ( mas isso claro, não é culpa deles ). Não têm consciência, de que por pior se julguem - e não lhes tiro a razão em alguns casos - , ainda estão muito bem, sendo o bem então relativo.
Sei que este meu texto ainda pode causar muita polêmica, porém foi uma "raiz de equação" que encontrei para ser justo com uma maioria - portanto, a representação do que chamamos realidade - em nosso país, que normalmente ficam de fora das estatísticas sobre juventude, dos livros sobre adolescentes - e seus pais -, e das edições especiais da revista Veja sobre jovens.
Francisco Maximiano da Silva
Francisco M. Silva soprou estas palavras ao vento às
1:57 PM
17.8.03
HAROLDO CONHECE O POEMA
A minha última homenagem a Haroldo de Campos
Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às
6:12 PM
Caminhos
Às vezes nos perdemos dentro de nós, como cegos em rodoviária, crianças em shopping centers, simplesmente não sabemos o caminho, desconhecemos a saída, não sabemos aonde ir ou como voltar. Quando a filosofia não fornece mais respostas, apenas perguntas ou quando a ciência nos joga contra a sua parede de causa e efeito, papai e mamãe estão mortos, sepultados em seus túmulos de moral tradicional condicionada, enterrados a sete palmos de álbuns de fotos, souvenires e enxovais do passado que não volta mais. A campainha toca: é a solidão trazendo um envelope com uma carta em branco, para não ser lida, para ser esquecida pelo gesto, pelos sussurros e suspiros que se foram.
Sentimos-nos perdidos, cobaias em labirintos observadas por cientistas oniscientes cruéis envergando os seus aventais brancos sujos do sangue da última vivissecção a nos guiar por fios invisíveis com seus diplomas convencionados de senhores do saber.
Eles nos manipulam sabem que falta faz o milenar jogo de línguas e empapar-se de suor em poses ridículas perscrutando as entranhas alheias numa fútil tentativa de fusão e tato ¿ se a união mais almejada é a impossível possibilidade de estarmos conosco como se fôssemos um só em nós mesmos , como se não precisássemos do outro.
A televisão é um cego caolho afônico, perdida num mar quântico de estática. Sem as vozes unilaterais tagarelando, gargalhando e bufando inverdades coloridas subliminarmente com anilina e envoltas em celofane publicitário com o selo arbitrário de qualidade de um órgão público que regulamenta o que você atira boca adentro, buscamos aquele outro irreal diante do espelho ( que fitamos esperando respostas que nunca vêm, tentando golpear a nossa imagem refletida, porque ela é culpada e nós, inocentes ) ou conversando consigo mesmo, num monólogo ou orando na calada da noite,( o cúmulo do monólogo , como perseguir a própria sombra), ou esperando que o telefone mudo toque e que haja alguém do outro lado da linha, para fazermos conexões com o mundo exterior. Ignorantes que a melhor das saídas para a solidão é a descarga do vaso sanitário, por onde escoa a parte mais legítima de nós, os nossos verdadeiros filhos, resultado do que foi engolido por nossas goelas famintas e percorreu quilômetros dentro do nosso mundo interno até serem expulsas pelos orifícios abertos contra o vaso. Os esgotos são o verdadeiro mundo oculto, o mundo das tubulações onde a sujeira de todos se encontra deságuam num mar negro em fossas putrefatas com excrementos humanos tão intoxicados por nossa alimentação artificial que não servem nem como adubação. A nossa conexão com estes lugares imundos é o vaso sanitário e as pias e ralos dos banheiros, lavanderias e cozinhas das cidades.
Finalmente desesperamos-nos e implementamos idéias absurdas que não levam a lugar algum, como procurar passagens secretas nas paredes de nossos apartamentos, caminhos que levem a outro lugar onde haja pessoas e verdades, pessoas de verdade que sirvam não para nos seguir ou nos guiar mas para nos acompanharem nos caminhos da vida
Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às
3:32 AM
14.8.03
Sonho Uto-Psicodélico Insano
Parada ao Ar!
Depois ..., se distanciando.
Figura angelical,
Querubim sem asas;
espectralmente Pálida
como a neve.
Estendia braços, mãos, dedos,
para Tocar-me,
Mas quando estendia
Os Meus ...,
Desilusão total.
Mas, uma vez houve!...,
- Uma Apenas -
em que nos tocamos ( senti
a Saudade sucumbir mortalmente ).
Então!
Mil raios Atravessaram minh'alma, e eu Próprio
Era um Deles.
Num clarão!... A sensação não foi-me choque! Mas;
intenso Bem Estar
- Estar Bem, está bem -.
Poder poderia chamar de
Prazer?
O prazer de simples e
Utopicamente estar contigo(?).
Francisco M. Silva soprou estas palavras ao vento às
9:19 AM
Li Stoducto soprou estas palavras ao vento às
3:02 AM
13.8.03
"Não tenho necessidade de crer em Deus. Eu o conheço".
Carl Gustav Jung
Francisco M. Silva soprou estas palavras ao vento às
1:50 PM
Opinião Pessoal Sobre a Clonagem.
Não entendo o motivo de tanta polêmica com relação a clonagem. A natureza já produz clones há eras e ninguém fala mal da natureza. Ainda que as pessoas possam confundir, ninguém diz que o irmão gêmeo de alguém é o próprio alguém; desse modo, o clone de Ayrton Senna ( para fazer um apelo popular ), não teria que namorar a Adriane Galisteu, nem ser piloto de Fórmula 1, pois nada mais seria que seu irmão gêmeo, apenas isso e nada mais. A questão é que a clonagem de seres humanos é inútil ( um irmão gêmeo, só serve para termos um irmão ( o que é bom ), e as pessoas confundirem conosco ( o que pode não ser tão bom assim)), porém a clonagem de células tronco não. Por isso, não sou contra as pesquisas de clonagem, desde que sejam para trazer benefícios gerais a humanidade e não apenas a um restrito grupo narcisistas endinheirados.
Francisco Maximiano da Silva
Francisco M. Silva soprou estas palavras ao vento às
12:55 PM
12.8.03
Cobiça( da série Os 7 Pecados)
Do conflito entre o ser e o ter nascem a cobiça e os romances
A cobiça do travesti é (ser) a mulher
A cobiça da lésbica é (ser) o homem
O capitalista é aquilo que tem.
O sábio é aquilo que conhece.
O miserável e o ignorante cobiçam.
A ganância do olho é a imagem
O ouvido cobiça o som
A ganância da língua é o gosto
O beijo cobiça o rosto
A cobiça de um (pecado) é o outro.
A cobiça da gula é a fome.
A ganância da luxúria é o desejo.
A cobiça da soberba é o elogio.
A ganância da ira é a vingança.
A cobiça da inveja é a semelhança.
A ganância da avareza é a parcimônia.
As causas (perdidas) cobiçam os (d)efeitos
A cobiça do agasalho é o frio
O cheio cobiça o vazio
O certo cobiça o perfeito
A seta cobiça o alvo
Os fins( de semana) cobiçam os meios( de semana)
O seio cobiça os lábios
A bala cobiça o peito
O desajeitado cobiça o jeito
O sábio cobiça alfarrábios
A ganância do predador é pela presa
O cão gane de ânsia pelo osso
O vampiro almeja o pescoço
O urubu cobiça a carniça
O lemingue cobiça o precipício
Leia A Luxúria, A Gula, A Soberba, nos Arquivos do Aos 4 Ventos.
E venha me cobiçar no Areias ao Vento
Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às
2:42 AM
11.8.03
SHOPTRIX
Fugir, - talvez das conseqüências de nossa própria natureza - é sempre fugir para fora? Não. Há os lugares - chamaria também de prisões, e depois de campos da Matrix ( pois como diz o budismo: são maya, ilusão. ) - onde se foge para dentro. Afinal o que fazemos quando nos escondemos, é justamente isso: Fugir para dentro; tal como as crianças costumam se esconder quando estão com medo de algo. Afinal, se foge porque se tem medo.
Para lugares onde se foge para dentro, - onde ficamos quase que uterinamente protegidos - e as "forças do mal" ficam do lado de fora, ao menos em português convencionamos chamar de refúgios ( sejam eles bilógicos - como Galápagos - ou psico-sociais ).
Imaginem agora um lugar ( verdadeiras ilhas - pois lá fica-se psicologicamente ilhado do que entendemos por mundo exterior, e se estamos ilhados, também estamos isolados dos perigos de fora da ilha - do consumismo e capitalismo ), onde além de refugiarmo-nos - ou seja: prendemos nossos medos do lado de fora -, possamos satisfazer alguns de nossos impulsos e desejos consumistas ( ou ilusoriamente, talvez a grande maioria deles ), e de necessidade de distração. Um lugar - assim como a Matrix - especialmente construído para não nos darmos conta da realidade exterior; onde, não algumas vezes há confronto de classes ou tipos sociais, simplesmente por dividirem o mesmo espaço - o que causa incômodo em alguns, sendo portanto evitado em alguns desses espaços pela inibição de miscigenação social - seja de classes ou tipos, ( que são pessoas que se comportam de maneira diferente dentro de uma mesma classe ) - ou psicológica. Um lugar, onde possa-se estar livre do fresco ar poluído dos centros urbanos, pois neste lugar respira-se ar condicionado cheio de ácaros - e de outros sabores dissaborosos, como a mendicância -; onde se possa estar "livre" dos perigos do mundo exterior. Onde se substitua o ruído - ultra-dessibélicos, num neologismo - das ruas, pelo zumbido da colméia humana. Um lugar que assim como nos centros urbanos, formamos um "aglomerado de ninguéns", - como já cantava o poeta Gregory Grimaud - que serve basicamente para alimentar a máquina capitalista com energia de consumo, enquanto estes, - a máquina e o lugar como unos - nos alimentam com suas ilusões, sobretudo fabricadas por publicitários altamente treinados em manipulação mental.
À esse lugar onde nos refugiamos e nos distraímos, e além disso nos iludimos, - sendo que alguns aceitam piamente esta ilusão como a verdade absoluta - podemos chamar também de Shopping Center ( ou do que você preferir ). Sistema capital psico-social fechado sobre si mesmo enquanto psico-universo ( o mundo real-interior de cada um; sendo este a projeção do que entendemos estar fora de nossas cabeças ) para seus freqüentadores, e aberto no que se refere ao mercado e suas relações de comércio. As semelhanças com a Matrix, a primeira vista podem não ser tão evidentes, mas "existem". Num shopping center, supomo-nos seguros dos perigos do universo exterior, - pois como já dito: Shoppings são ilhas, portanto neles estamos ilhados - nesta opção de lazer que também é um tipo prisão ( uma prisão até confortável, onde se serve banquetes de pizza, pipoca ou big mac ); mas como tudo o que não é absolutamente impossível tem uma probabilidade - ainda que ínfima - de acontecer, de vez em quando dramas fazedores de notícia, - e portanto vendedores de jornais - como pessoas metralhadas num cinema de shopping ( pessoas que estavam lá sentindo-se seguras ), brigas ou beijos de namorados, - que só será um drama fazedor de notícia, se eles forem gays - podem acontecer. Para impedir que as coisas desandem - ou numa tentativa de, dar ordem ao caos - os shoppings possuem os "seguranças de shoppings", que são bem a imagem e semelhança dos agentes da Matrix, cuja função é conter ocorrências anômalas, tratando-se portanto de mecanismos normalizadores, por intimidação presencial, ( a simples presença deles intimida possíveis transgressores da normalidade ) ou ativa ( quando eles entram em ação ).
Sob efeito - de certo narcótico - das esdrúxulas palavras acima, concluí-se sem dúvida(?), que o refúgio-lazer ao qual pais e adolescentes corriqueiramente recorrem para "escaparem" um pouco do mundo, também são prisões. Psico-prisões. Não uma prisão física de onde seu corpo não possa sair e, não se sirva banquetes ( principalmente de coca-cola e big mac ) ; mas uma prisão psíquica, que quando saímos, talvez nossas mentes ainda fiquem por lá. Afinal, precisamos de amor, carinho, proteção, e lazer - que os shoppings, podem vir até fazer propaganda que você encontra tudo isso por lá, sendo portanto o paraíso, e ou, o Édem de concreto, vitrines, e propaganda - . Ah, também precisamos ir ao cinema - que tem que ter pipoca, é claro - e, comer big mac. Além disso, se já sabemos ( não é o que canta os Tribalistas? ), precisamos namorar, e os shoppings são ótimos paqueródromos de maritacas ( por maritacas, entende-se adolescentes normais que falam as mais esdrúxulas coisas - em geral sempre as mesmas - sem parar ). Pois é. Fizermos refúgio e lazer ( também vale dizer, lazer e refúgio ) darem na mesma. E, fim de papo - adolescentemente esdrúxulo.
Francisco Maximiano da Silva.
Francisco M. Silva soprou estas palavras ao vento às
9:55 AM
9.8.03
Palavras -chove
Ando debaixo da chuva na noite escura , estou usando óculos e os sapatos e os meus cabelos estão encharcados.Olho para o alto e vejo os raios iluminando as nuvens , um helicóptero sobrevoa a cidade.É o dia do meu aniversário, eu me lembro disso quase por acaso ao ver uma mulher grávida passando ao meu lado. Talvez porque ela fosse parecida com a minha mãe , preocupei-me com ela e pensei o que uma mulher esperando um neném faria andando por aí numa noite escura de tempestade .Talvez ela tivesse uma missão, ou simplesmente voltando para casa após um dia de trabalho, porque já foi o dia em que mulheres grávidas não trabalhavam. Talvez estivesse se arriscando no concurso da vida, numa loteria de vida e morte , enfim dando trabalho para o seu anjo da guarda com patentes militares mas certamente o seu príncipe encantado não apareceria montado em seu cavalo branco para salvá-la caso algo acontecesse. Atravesso a rua , olho para a esquerda e para a direita. Vejo um prédio baixo de quatro andares com uma marquise sob a qual um pobre cachorro, encharcado como eu, tenta se abrigar da chuva; e havia também um maltrapilho ao seu lado, mais decadente do que um cachorro molhado, um homem com a cabeça entre as pernas , tentando se aquecer num fogo débil ao lado uma casca de banana e um naco de carne, restos da sua última refeição . Pobre homem, talvez seja uma pessoa deficiente, dizem até que professores, dentistas, inclusive médicos caem na mendicância, muitos afirmam que os vícios como o álcool e o fumo os atiram neste estado, mas eu tenho uma teoria diferente, a sociedade os atira neste estado e o álcool e o fumo são apenas rotas de fuga, passagens de emergência para os jogadores perdedores . De uma janela do prédio um japonês chupando um sorvete me observa como se eu estivesse nu, como se fosse eu o estrangeiro mas tenho certeza que ele tem um espelho em casa e por mais cara de cubano ou judeu ,quem sabe, que eu tenha, não sou uma figura tão estranha para ser observado assim. Distraio-me, e caio numa piscina formada num desnível da rua, abastecida por uma cachoeira vinda da rua que a corta ,e eu vejo uma seringa de injeção usada boiando, mas, felizmente, uma onda a varre para longe. Bato a mão no bolso, a minha chave sumiu, levada pela enxurrada e não adiantava procurar naquele mar de lama que poderia até esconder um destes jacarés que as lendas urbanas dizem vagar por aí. Eu me desespero por um instante, se tivesse um carro isto nunca teria acontecido...olho para o alto e o japonês está sorrindo como se tivesse gostado do que viu. Ao meu lado um telefone público toca, por impulso eu o atendo e uma voz gargalha , olho para a janela e vejo o maldito japonês ao telefone e por um momento, apenas por um momento imagino se a chuva, a mulher grávida, o cachorro, o japonês chupando sorvete se tudo era uma armadilha para no dia do meu aniversário perder as chaves de casa.
Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às
10:55 PM
8.8.03
Cansaço ( 1ª Continuação - talvez única - de "Postulado da Palavra" )
O que há em mim é sobretudo cansaço -
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas -
Essas e o que falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Ente cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Por que eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser Ou até se não puder ser ...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto ...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo, Cansaço ...
Às VEZES tenho idéias infelizes,
Idéias subtamente felizes, em idéias
E nas palavras em que naturalmente se despegam ...
Depois de escrever, leio ...
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu ...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta Com que alguémescreve a valer o que nós aqui traçamos?...
Álvaro de Campos
Francisco M. Silva soprou estas palavras ao vento às
1:03 PM
6.8.03
"sine die"
fusão difusa e confusão
passo em falso ao cadafalso
e a queda livre que condena
oscilações diminutas
a rotina oprime a luta
antes de ser alguma coisa
ser ninguém - sem compromisso
porque navego nos teus ares
conheço as tuas feridas
sei o odor dos teus incensos
e não penso em nada mais
onde anda a tua sutileza
e a leveza cíclica do teu olhar?
de flores, me bastam as avencas
teus rubores e teus risos
e o melhor que há de nós dois
te peço uma vez mais
vem ficar comigo
e resolvemos tudo agora
o insolúvel adiamos sine-die
e fica tudo pendurado pra depois
tarciso soprou estas palavras ao vento às
4:34 PM
Soberba
Eu me orgulho destarte de ser quem eu sou
E me orgulho debalde do que tenho
Porque acredito, sou aquilo que detenho
O orgulho do lobo, são as garras
O orgulho das formigas é o trabalho
A vaidade da cigarra é o seu canto
A soberba matou o pavão
Todavia aquilo que tenho mostra quem eu sou
Sabe com quem está falando?
O meu diploma é maior do que o seu.
A minha casa é mais potente que a sua
O meu pênis é pós-graduado
A minha libido custou mais caro
O orgulho do atleta é a vitória
O orgulho do viciado é a derrota
A vaidade do político é o voto
A arrogância do famoso é o suicídio
Eu sou vaidoso portanto e por tão pouco
E se vai, idade jovial.O tempo não pára.
Tudo se esvai, por isso valetudo para ter nada
Cara, ter: nada...
da série OS 7 PECADOS
Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às
1:44 AM
5.8.03
A árvore dos frutos malditos
Saberás quando atingires a maturidade que alguns frutos caem da arvore verdes; muitos são apanhados e devorados;mas poucos são os frutos que vão ao chão maduros e ali apodrecem deixando sementes que germinarão, brotarão e se ramificarão gerando outra árvore com outros frutos.
O fruto do amor é o homem.
O fruto do ódio é a vingança.
O desespero é o fruto podre da esperança.
O brinquedo é fruto da brincadeira de criança
A amizade são ramos do mesmo galho.
A paixão é um beija-flor, polinizando.
A canção são galhos ao vento,rangendo.
E o sussurro são as folhas farfalhando.
Conhecerás os frutos do Bem e do Mal. Os frutos do Bem são doces e curam; os frutos do Mal são amargos e fazem adoecer.
A infância é um broto, não se sabe ainda.
A maturidade é quando amadurecem os frutos.
Na velhice caem as folhas, os galhos secos.
E a morte é quando só restam tocos.
Sentirás emoções diferentes conforme as estações e aprenderá que tudo passa.
Na primavera tudo se inicia flores desabrocham.
No verão alegria brilha a luz do dia.
No outono sente a melancolia.
O inverno traz a agonia.
E perceberá que as árvores também têm sua índole e destino.
A virtude é a árvore que mais frutifica.A sabedoria ,a árvore mais antiga.A agonia, a árvore que virou lenha.E a vingança é a árvore dos frutos malditos.
venha comer do fruto proibido, aqui comigo: Areias ao Vento
Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às
1:26 AM
4.8.03
Verdade
Não pensem que, tal como regem os genes nos machos, me apaixonei por Ela tão somente por causa de um par de coxas, bumbum e seios, dentre outras partes. Não. Com todo o respeito à profissão, não tenho inclinação para açougueiro.
Apaixonei-me pelo Ser. O Ser Ideal, que talvez seja um reflexo exterior de mim mesmo. Apaixonei-me porque encontrei - me - num único Ser, - Ela - o que gosto de chamar de Belezas Cósmicas: Arte, - isso mesmo arte - poesia, música, dança, sensibilidade. Parecia haver algo de divino no que sentia. Por isso me apaixonei; acreditei que uma só pessoa fosse - ou ainda é - todas essas maravilhas pelas quais nossos genes não se interessam muito.
Mas quando soube que Ela sofria, me afastei. Me afastei, porque não queremos o sofrimento ou o mal do que amamos. Foi necessário ( e certamente ainda o é ). Me afastei porque me preocupo com Ela ( Você ). Desejo-lhe toda a felicidade do mundo, mas não direi que A amo. Para que não sofra.
Todo amor sente a necessidade de ser amado, o meu já transcendeu esta necessidade. Ao menos quero acreditar que sim; e seu eu acreditar veementemente, então será verdade.
Entre Tróia e Orlando, fico com Tróia. Entre guerreiros e curtidores, seguirei na companhia dos guerreiros. Seguirei em meu conjunto. Esta é a verdade.
Francisco Maximiano da Silva
Francisco M. Silva soprou estas palavras ao vento às
2:35 PM
Fantástico
Sou fantástico porque sou humano.
Como você, sou um deus
Imperfeito. E disso,
Não pesso desculpas à
Ninguém.
Somos fantásticos por causa de léptons e bósons
do Universo.
Sou fantástico, porque posso trazer a vida e ao mesmo
Tempo
A Morte.
Sou fantástico porque posso AMAR - amá-la - e
odiar.
Sou fantástico, porque sou. E só.
Porquê o mundo é FANTÁSTICO.
Porquê você e eu somos utópicos. Então, somos fantásticos.
Sou fantástico, porque sou humano. Porquê amo.
E disso, não pesso desculpas à ninguém.
Francisco M. Silva soprou estas palavras ao vento às
2:10 PM
3.8.03
O Livro dos Dias, do Destino, dos Sonhos e da Morte
O Livro dos Dias é um diário. Nós que escrevemos esses diários virtuais conhecemos bem as dificuldades e os prazeres de escrever as nossas efemérides no espaço virtual da Internet.Os blogueiros nunca sabemos onde está o limite entre o particular e o público; entre segredos e boatos.As nossas palavras são jogadas ao vento como aviões de papel, lançadas ao mar de milhares de diários e weblogs como uma mensagem na garrafa: não sabemos quem irá encontrá-la. Por vezes, os nossos dizeres e afazeres se perdem no inferno enfermo, no espaço de palavras vazias da Internet; ou no tempo escasso dos visitantes que vêm - e vão - a nós com as horas contadas, correndo contra as areias do tempo escasso de suas vidas atribuladas. A liturgia das horas,e dos dias na internet é ditada por um grande íncubo que só fomenta o sexo; a Igreja da Libido é o maior sucesso da rede: todos procuram sexo, tudo é sexo mas ninguém se excita lendo você. O deus-calendário é um mega aglomerado de feriados e dias santificados, de diversão, resorts, flats, e parques temáticos virtuais: e ninguém se diverte lendo sobre você. A Vênus midiática rebola as suas ancas seduzindo os internautas com notícias comestíveis, copuláveis, uma concupiscência digital, uma orgia num mundo de novidades: a sua vida não é notícia, então ninguém noticia você ou o seu blog.Enfim, se você não falar de sexo, de notícias e de diversão, ninguém lerá o seu diário porque a sua vida não importa a ninguém além de você mesmo.E olhe lá.
No Livro dos Mortos , às vezes, a sua vida não importa nem para você mesmo. Se este é o seu caso , você é um suicida em potencial , e deve seguir um importante conselho meu: escreva uma carta de suicídio e mande publicarem postumamente no seu weblog que a sua morte se tornará um fenômeno de visitação. No Livro dos Mortos que é o entretenimento brasileiro, Cazuza, Raul Seixas, Getúlio Vargas e Jim Morrisson fazem mais sucesso mortos do que vivos. No século XIX e início do XX costumava-se fazer o Livro dos Mortos - fotografar as pessoas falecidas como se vivas, para que descansassem em paz: mais uma boa idéia, fotografar-se depois de morto para conseguir público. Afinal, o público brasileiro tem algo em comum com os urubus e hienas, não pode sentir o odor de carne apodrecendo que fica logo faminto. Ninguém se interessa pela sua vida ou pelos seus sonhos, porque a sua existência concorre com a dos outros, no mercado de trabalho, no mercado do sexo, no mercado da sobrevivência.Nota importante: isto é uma metáfora, não uma sugestão de suicídio; pense bem. Memento Mori: não é preciso se matar a si mesmo, todos inevitavelmente morreremos um dia.
O Livro dos Sonhos é mais do que uma obra freudiana. Passamos 1/3 das nossas vidas dormindo entre o sono e os sonhos. Uma pessoa com 28 anos de idade terá passado 9,33 anos de sono sonhando 4 sonhos por noite, isto é, escrevendo um livro com 13.621 sonhos esquecidos muito além de Freud, Jung, Adler, Reich...e que os índios Senóis da Malásia sabem como ninguém utilizar. Se você narrar os seus sonhos no seu diário, ninguém quererá ler. Porém, se forem pesadelos talvez o público carniceiro venha arrancar nacos do seu sofrimento.
O Livro do Destino é aquele em que se escreve o que ainda não aconteceu mas que provavelmente acontecerá, porque assim estava escrito e assim se cumprirá. Maktub.É o livro dos prognósticos dos seus dias, o seu horóscopo: aquelas previsões coletivas e massisficadas que tratam-no como um ser não-individualizado com um signo zodiacal tatuado na alma. E, na verdade, penso que não somos nada além desse aglomerado de ninguéns sem rosto na multidão. O livro do seu planejamento, do seu calendário de afazeres, da agenda é o Livro do seu Destino. Nele, você escreve hoje o que fará amanhã, e pode também escrever comparando o seu dia com as previsões do horóscopo. Lembrando-se sempre que você só será lido por exemplo, se estiver vivendo com os dias contados em fase terminal de alguma doença incurável ou coisa que o valha : as pessoas adoram o cheiro de necrose penicilina e formol a que recendem as últimas palavras e desejos de um moribundo. Se você for um detento, O Diário de Um Detento vende bem a idéia de miséria humana, mas isso todos já sabiam.E vende mais se você estiver no corredor da morte
Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às
1:55 AM
Alegria Mansa
Pois a hora escura, talvez a mais escura, em pleno dia, precedeu essa coisa que não quero sequer tentar definir. Em pleno dia era noite, e essa coisa que não quero ainda tentar definir é uma luz tranqüila dentro de mim, e a ela chamariam de alegria, alegria mansa. Estou um pouco desnorteada como se um coração me tivesse sido tirado, e em lugar dele estivesse agora a súbita ausência, uma ausência quase palpável do que era antes um órgão banhado da escuridão diurna da dor. Não estou sentindo nada. Mas é o contrário de um torpor. É um modo mais leve e mais silencioso de existir.
Mas estou também inquieta. Eu estava organizada para me consolar da angústia e da dor. Mas como é que me consolo dessa simples e tranqüila alegria? É que não estou habituada a não precisar de consolo. A palavra consolo aconteceu sem eu sentir, e eu não notei, e quando fui procurá-la, ela já se havia transformado em carne e espírito, já não existia mais como pensamento.
Vou então à janela, está chovendo muito. Por hábito estou procurando na chuva o que em outro momento me serviria de consolo. Mas não tenho dor a consolar.
Ah, eu sei. Estou agora procurando na chuva uma alegria tão grande que se torne aguda, e que me ponha em contato com uma agudez que se pareça com a agudez da dor. Mas é inútil a procura. Estou à janela e só acontece isto: vejo com olhos benéficos a chuva, e a chuva me vê de acordo comigo. Estamos ocupadas ambas em fluir. Quanto durará esse meu estado? Percebo que, com essa pergunta, estou apalpando meu pulso para sentir onde estará o latejar dolorido de antes. E vejo que não há o latejar da dor. Apenas isso: chove e estou vendo a chuva. Que simplicidade. Nunca pensei que o mundo e eu chegássemos a esse ponto de trigo. A chuva cai não porque está precisando de mim, e eu olho a chuva não porque preciso dela. Mas nós estamos tão juntas como a água da chuva está ligada à chuva. E eu não estou agradecendo nada. Não tivesse eu, logo depois de nascer, tomado involuntária e forçadamente o caminho que tomei - e teria sido sempre o que realmente estou sendo: uma camponesa que está num campo onde chove. Nem sequer agradecendo a Deus ou à natureza. A chuva também não agradece nada. Não sou uma coisa que agradece ter se transformado em outra. Sou uma mulher, sou uma pessoa, sou uma atenção, sou um corpo olhando pela janela. Ela é uma chuva. Talvez seja isso que se poderia chamar de estar vivo. Não mais que isto, mas isto: vivo. E apenas vivo é uma alegria mansa.
Clarice Lispector in "A Descoberta do Mundo" Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1999
Bia soprou estas palavras ao vento às
1:48 AM
1.8.03
Amoxímoros
Eu vejo com meus olhos cegos de ilusão.
Ouço com meus ouvidos surdos para a razão.
Falo com a minha boca muda de paixão.
Cheiro, o nariz com rinite, o seu perfume que já se dissipou.
Toco, com minhas mãos bobas amputadas, o seu corpo.
Sinto a sua presença insensível que há muito se foi.
Alimentando com ódio um amor morto de fome
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Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às
1:17 AM